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sábado, 4 de julho de 2009

Ah-cye-ee

CartaCapital Cynara Menezes


Que viagra, que nada. O negócio agora nos Estados Unidos é o Ah-cye-ee. A fruta nativa da Amazônia conquistou a terra de Barack Obama com propriedades que até Deus duvida. Se, entre nós, o açaí tornou-se famoso como "refeição completa", rico em ferro, fósforo e cálcio, vitamina E, proteínas e fibras, entre os gringos a ação antioxidante do fruto do açaizeiro, a palmeira cientificamente conhecida como Euterpe oleracea, foi turbinada com poderes de superalimento, capaz de levantar até defunto.

"Banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer", cantava Braguinha em sua marchinha de 1938. No caso do açaí, gaba-se o contrário na gringolândia: eles acreditam que emagrece, enquanto aqui mesmo o marombeiro com cérebro inversamente proporcional aos músculos sabe que a fruta engorda, já que é altamente calórica. Uma tigela com 100 gramas de açaí contém 247 calorias, o equivalente a uma fatia de picanha. Parte importante da dieta do paraense, seu consumo é recomendado no estado às crianças desde pequenas, para combater a desnutrição.

Vários sites americanos também vendem o produto garantindo que se trata de poderoso afrodisíaco, eficaz em casos de impotência sexual e como regenerador de células cancerosas e dos músculos. Cremes anti-idade com açaí estão sendo vendidos às mulheres como a última panaceia para o rejuvenescimento da pele. Segundo a Spin, empresa de pesquisa de mercado especializada em produtos naturais, houve um aumento de 60% no consumo de derivados do açaí nos EUA em relação ao mesmo período de 2008. Nos últimos doze meses, o mercado de produtos do açaí movimentou cerca de 115 milhões de dólares, afirma a Spin.

A lenda em torno da "açaí berry", como é chamada a fruta por lá, ganhou força, em fevereiro de 2008, com sua aparição no talk show de Oprah Winfrey, o programa de maior audiência da tevê americana em todos os tempos. A palavra de Oprah é lei: livros que ela cita se transformam em best sellers, candidatos se tornam presidentes e frutinhas exóticas do Hemisfério Sul viram febre. No show, o celebrity cardiologista Mehmet Oz colocou o açaí na lista dos mais eficientes alimentos anti-idade do mundo. Quando o celebrity dermatologista Nicholas Perricone, o descobridor do DMAE, pôs a fruta no topo de seu ranking dos "superalimentos", então, foi a glória para a pretinha paraense no programa da negra, ou melhor, afro-americana Oprah.

Com as caixas postais dos compatriotas lotados de spam contendo frases como "emagreça com o segredo dietético da Oprah" ou "reforce sua vida sexual com o açaí", a apresentadora viu-se obrigada a colocar um aviso em seu site, já que alguns destes produtos utilizam seu nome indevidamente e não têm o necessário registro na Food and Drug Administration (FDA). "Oprah Winfrey e o doutor Oz não estão associados nem endossam nenhum produto com açaí e as vendas on-line de tais produtos, inclusive os sucos MonaVie", diz o site do programa.

A MonaVie, empresa americana que começou a operar no Brasil em outubro de 2008, vende uma "garrafada" mista de açaí com outras dezoito frutas, entre elas camu-camu, lichia, banana e cupuaçu. A bebida tornou-se famosa nos EUA depois que o magnata das telecomunicações Sumner Redstone, dono da CBS e da Viacom, informou ser MonaVie seu elixir da juventude. Hoje com 86 anos, Redstone disse pretender viver mais 50 graças à beberagem.

Os executivos da empresa negam tais efeitos milagrosos. "A MonaVie não faz alegações terapêuticas sobre seu produto", afirma Mauricio Patrocínio, diretor-geral da empresa no Brasil. "O açaí é um ingrediente essencial para quem quer ter um estilo de vida saudável." Vendida de porta em porta, tipo Avon, a garrafa da MonaVie custa 95 reais.

Bem antes deles, os maiores divulgadores do açaí entre os americanos foram dois amigos que se apaixonaram pela fruta em viagem ao Brasil e começaram um pequeno negócio engarrafando um mix de polpa de açaí e guaraná sob o rótulo de Sambazon. Hoje, depois de distribuir milhões de amostras em lojas, maratonas e campeonatos de surf, colhem os resultados. Em nove anos, a Sambazon tornou-se a maior distribuidora de derivados de açaí dos Estados Unidos, com produtos que vão desde frozen smoothie packs ("polpinhas", como seu dono, Ryan Black, traduz) até suplementos alimentícios.

Black, que fundou a empresa com o amigo Ed Nichols e seu irmão Jeremy, conta que a Sambazon cresce "de forma agressiva" e espera dobrar seu faturamento nos próximos anos. Ele diz que a principal qualidade do açaí, uma "superfruta", em sua opinião, são as propriedades antioxidantes, e critica os vendedores de milagres na internet. "O que é pior é que eles estão vendendo um produto de açaí superbarato, recheado na verdade com maltodextrina, e que é rosa ou amarelo, enquanto o açaí é púrpura!", indigna-se Black.

O dono da Sambazon também fica irritado com as promessas de perda de peso feitas pelos mercadores de açaí na rede. "É muito bom para ser verdade: sentar no sofá e tomar uma pílula que a Oprah endossou fará você perder peso? Ora, não seja trouxa!", diz Black. A Sambazon, no entanto, tira uma casquinha dos tais poderes afrodisíacos do açaí, vendendo um energético chamado Jungle Love, que em tudo lembra a Catuaba Selvagem das festas juninas no Brasil, em cujo rótulo aparece um fortão carregando uma moça desfalecida.

"Muitos dos meus consumidores falam que o mix de açaí com guaraná melhorou sua performance sexual", afirma Black. "No caso de nosso energético afrodisíaco, adicionamos maca (uma raiz peruana), catuaba, damiana e maracujá, que são conhecidos como ‘estimulantes do amor’."
O que há de verdade em tudo isso? De acordo com a Embrapa, é realmente impressionante a função antioxidante da fruta, devido a seu elevado teor de antocianinas, pigmentos naturais da família dos flavonoides – daí a cor do açaí. A fruta brasileira teria duas vezes mais eficácia contra os radicais livres do que a blueberry, por exemplo, segundo o doutor Oz da Oprah Winfrey. Em termos de proteínas, o açaí possui teor superior ao do leite e do ovo, e ainda é rico em minerais.

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