Tales Faria no JB
Recém-casado, larguei o curso de física na Universidade Federal do Rio de Janeiro e fui cursar jornalismo. Minha mulher ficava muito irritada quando eu dizia que desistira da física porque não suportava a expectativa de passar o resto dos meus dias estudando. “Não fala isso, vai parecer que você é uma pessoa vazia”, reclamava a Fátima. Mas a verdade é que, ao sair da física, fugi desse negócio de teorias muito profundas e escondi-me nas palpabilidades do jornalismo. E eis que, no dia 30 de junho, recebi um e-mail do Alexandre Werneck, um doutor em sociologia que foi subeditor do Caderno Ideias & Livros deste Jornal do Brasil, e saiu para dedicar-se à pesquisa científica. Werneck dizia o seguinte:
“Escrevo por motivos estritamente acadêmicos. Li sua coluna de hoje sobre o Sarney e ela veio ao encontro de um tema com que tenho trabalhado em minha pesquisa, a questão da legitimidade. Na verdade, do uso que se faz desse termo. Você o usa em um contexto muito bom para essa questão, mas queria pedir um favor: você me responderia como ocorreu de usar esse termo e o que ele quer dizer para você? Seria demais pedir uma definição formal (do gênero ‘legitimidade é...’)? Outra: faz sentido, para você, falar em legitimação?”.
“Caramba!”, pensei. Devo ter escrito alguma besteira. Vai ver, usei o termo de maneira incorreta, e meu amigo Werneck, um sujeito preparado, vai fazer a festa sobre meu cadáver. No texto, intitulado Chegou a hora de Sarney se legitimar, eu citava os vários ataques que o presidente do Senado, José Sarney, vinha recebendo de seus pares. Alguns desses ataques partiram de figuras também sob o fogo cruzado das denúncias de participação na bandalha do Senado, como os senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Tião Viana (PT-AC), mas a vulnerabilidade dessas figuras não tornava os ataques menos efetivos. Por quê? Porque Sarney sofre um problema de legitimação. Por isso, terminei aquela coluna argumentando: “O patriarca da família Sarney e do PMDB terá que resolver o seu problema imediato de legitimidade no comando da Casa. A negociação de um afastamento temporário (...) tende a ser uma solução”.
Dito isso, respirei fundo e respondi ao e-mail do Werneck:
“Não sou sociólogo, nem filólogo, nem ólogo. Daí por que fico muito inseguro para deitar falações. Mas, a propósito da expressão ‘legitimar’: usei-a como uma espécie de citação do próprio Sarney. Uma linguagem que ele usa muito. Na sua última entrevista ao programa Roda viva, da TV Cultura, Sarney lembrou os ataques que sofria do Ulysses Guimarães, e argumentou que era um presidente (da República) fraco porque não havia sido eleito, nem pela via direta, nem pela indireta. Era o vice de Tancredo Neves que chegou ao cargo pela morte do titular. ‘Tive de me legitimar durante o exercício da Presidência’, explicou-se. Usei a expressão para chamar o velho cacique à sua própria razão, numa linguagem que ele entende. Quanto ao ‘legitimar’ propriamente dito, uma das versões do Aurélio o traduz como ‘equiparar (o filho ilegítimo) à situação legal dos legítimos em consequência do posterior casamento dos pais’. Acho que é neste sentido que usei: Sarney é o filho ilegítimo do casamento entre o PMDB e o PT, temporariamente desfeito no Senado e que parece estar sendo refeito. Para se legitimar, talvez tenha que deixar o cargo temporariamente e forçar a legalização do casório. Deu para entender?”.
Está lá no artigo primeiro, parágrafo único da Constituição: “Todo o poder emana do povo”. Mas, em Brasília, costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que todo o poder emana do príncipe. Às vezes, os políticos confundem boutade e realidade e acabam acreditando que é do príncipe que tudo emana mesmo. Sarney sabe da necessidade de se legitimar, e foi tentar fazê-lo nas emanações do Palácio do Planalto. O presidente Lula até que lhe deu todo o apoio. O PT, que havia jogado Sarney para fora do barco, viu-se depois obrigado por Lula a lançar-lhe uma corda de salvação. Mas o fez muito timidamente, e agora pensa até mesmo em recolher a corda.
De qualquer maneira, os petistas ficaram no meio do caminho. E o pobre Sarney, exposto ao relento, às chuvas e trovoadas. Pior. Continua necessitando de se legitimar, como o filho ilegítimo de um tumultuadíssimo casamento entre o PT e o PMDB.
Recém-casado, larguei o curso de física na Universidade Federal do Rio de Janeiro e fui cursar jornalismo. Minha mulher ficava muito irritada quando eu dizia que desistira da física porque não suportava a expectativa de passar o resto dos meus dias estudando. “Não fala isso, vai parecer que você é uma pessoa vazia”, reclamava a Fátima. Mas a verdade é que, ao sair da física, fugi desse negócio de teorias muito profundas e escondi-me nas palpabilidades do jornalismo. E eis que, no dia 30 de junho, recebi um e-mail do Alexandre Werneck, um doutor em sociologia que foi subeditor do Caderno Ideias & Livros deste Jornal do Brasil, e saiu para dedicar-se à pesquisa científica. Werneck dizia o seguinte:
“Escrevo por motivos estritamente acadêmicos. Li sua coluna de hoje sobre o Sarney e ela veio ao encontro de um tema com que tenho trabalhado em minha pesquisa, a questão da legitimidade. Na verdade, do uso que se faz desse termo. Você o usa em um contexto muito bom para essa questão, mas queria pedir um favor: você me responderia como ocorreu de usar esse termo e o que ele quer dizer para você? Seria demais pedir uma definição formal (do gênero ‘legitimidade é...’)? Outra: faz sentido, para você, falar em legitimação?”.
“Caramba!”, pensei. Devo ter escrito alguma besteira. Vai ver, usei o termo de maneira incorreta, e meu amigo Werneck, um sujeito preparado, vai fazer a festa sobre meu cadáver. No texto, intitulado Chegou a hora de Sarney se legitimar, eu citava os vários ataques que o presidente do Senado, José Sarney, vinha recebendo de seus pares. Alguns desses ataques partiram de figuras também sob o fogo cruzado das denúncias de participação na bandalha do Senado, como os senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Tião Viana (PT-AC), mas a vulnerabilidade dessas figuras não tornava os ataques menos efetivos. Por quê? Porque Sarney sofre um problema de legitimação. Por isso, terminei aquela coluna argumentando: “O patriarca da família Sarney e do PMDB terá que resolver o seu problema imediato de legitimidade no comando da Casa. A negociação de um afastamento temporário (...) tende a ser uma solução”.
Dito isso, respirei fundo e respondi ao e-mail do Werneck:
“Não sou sociólogo, nem filólogo, nem ólogo. Daí por que fico muito inseguro para deitar falações. Mas, a propósito da expressão ‘legitimar’: usei-a como uma espécie de citação do próprio Sarney. Uma linguagem que ele usa muito. Na sua última entrevista ao programa Roda viva, da TV Cultura, Sarney lembrou os ataques que sofria do Ulysses Guimarães, e argumentou que era um presidente (da República) fraco porque não havia sido eleito, nem pela via direta, nem pela indireta. Era o vice de Tancredo Neves que chegou ao cargo pela morte do titular. ‘Tive de me legitimar durante o exercício da Presidência’, explicou-se. Usei a expressão para chamar o velho cacique à sua própria razão, numa linguagem que ele entende. Quanto ao ‘legitimar’ propriamente dito, uma das versões do Aurélio o traduz como ‘equiparar (o filho ilegítimo) à situação legal dos legítimos em consequência do posterior casamento dos pais’. Acho que é neste sentido que usei: Sarney é o filho ilegítimo do casamento entre o PMDB e o PT, temporariamente desfeito no Senado e que parece estar sendo refeito. Para se legitimar, talvez tenha que deixar o cargo temporariamente e forçar a legalização do casório. Deu para entender?”.
Está lá no artigo primeiro, parágrafo único da Constituição: “Todo o poder emana do povo”. Mas, em Brasília, costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que todo o poder emana do príncipe. Às vezes, os políticos confundem boutade e realidade e acabam acreditando que é do príncipe que tudo emana mesmo. Sarney sabe da necessidade de se legitimar, e foi tentar fazê-lo nas emanações do Palácio do Planalto. O presidente Lula até que lhe deu todo o apoio. O PT, que havia jogado Sarney para fora do barco, viu-se depois obrigado por Lula a lançar-lhe uma corda de salvação. Mas o fez muito timidamente, e agora pensa até mesmo em recolher a corda.
De qualquer maneira, os petistas ficaram no meio do caminho. E o pobre Sarney, exposto ao relento, às chuvas e trovoadas. Pior. Continua necessitando de se legitimar, como o filho ilegítimo de um tumultuadíssimo casamento entre o PT e o PMDB.
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