Aí tem também um "dia da clamídia"? Porque aqui tem.
Há sete anos, as autoridades de saúde da região de Estocolmo instituíram a "Segunda-feira da Clamídia", sempre na segunda ou terceira semana de setembro.
O objetivo é atrair pessoas que, durante o verão, tiveram relações sexuais sem proteção, para que sejam testadas gratuitamente, sem marcação de consulta prévia. A campanha se dirige, principalmente, a jovens entre 15 e 29 anos, mas qualquer um é bem-vindo para o teste.
O pôster de divulgação da campanha pode não ser nenhuma novidade para os suecos, mas sempre chama a minha atenção, todos os anos.
A pergunta-mensagem que aparece no pôster é a mesma, sempre: você esqueceu da camisinha no verão? E as letras são formadas por corpos nus, de homens e mulheres. Está em todos os lugares: nos ônibus, no metrô, nas escolas e nas ruas. Não me surpreenderia encontrá-lo também nas igrejas...
A clamídia é uma doença sexualmente transmissível (DST), muito comum na Suécia. A cada dia, quase cem jovens entram em contato com a bactéria. Em Estocolmo, a cada hora uma pessoa adquire a infecção.
A doença é traiçoeira, porque, muitas vezes, não apresenta sintomas. Mas pode levar à esterilidade.E, aparentemente, o problema aumenta todo ano, apesar das campanhas de conscientização.
Este ano, o dia de testar é segunda-feira, dia 14 de setembro. São quase cem consultórios de saúde pública que se mobilizam. Tanto o teste como o tratamento, caso necessário, são gratuitos.
Eu estou há muito tempo fora e não me lembro de que, no Brasil ou no Chile, houvesse um enfoque tão tranquilo, aberto e neutro com relação a uma DST.
Ainda me surpreende a forma como a vida sexual dos adolescentes é tratada aqui: sem culpas, sem cobranças, com atenção médica e psicológica gratuita e discreta. Não deixa de ser bonito...
Outra coisa interessante é que a clamídia é doença de comunicação obrigatória. Aqueles afetados são tratados, mas devem comunicar a todos os parceiros recentes que, por sua vez, também são aconselhados a submeter-se ao teste e tratar-se. E parece que funciona!
Eu acho tudo isso muito moderno. E, mesmo que existam queixas quanto ao sistema de saúde aqui, ainda fico de queixo caído com a educação sexual nas escolas e com a eficiência do serviço de atendimento nos chamados "Consultórios para jovens" (ungdomsmottagning). São, realmente, território-livre para adolescentes em dúvida e angustiados com a vida.
Não apoio promiscuidade. Mas, para aqueles que, como diz a música da campanha, se esqueceram da proteção, relaxaram ou se entusiasmaram demais nas aventuras de verão, é sem dúvida um alívio contar com a possibilidade de tirar a dúvida e tratar-se.
Tiro o chapéu para a "Segunda-feira da Clamídia".
Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental. Escreve no Blog do Noblat toda sexta-feira.
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