Andrea Pio no blog "Entrelinhas da Medicina"
http://entrelinhasdamedicina.blogspot.com/
Sempre fico muito reticente em me opor a certas opiniões unânimes sobre uma idéia, uma pessoa, ou um fato. Quando o faço, logo depois surge uma “auto-cobrança” representada pelo seguinte questionamento: Estou me rendendo à pretensão? Quem sou eu para discordar do que é praticamente unânime? Foi assim que adotei a palavra “dialética” como uma de minhas prediletas. É a dialética que, ao longo dos anos, vem me defendendo de possíveis pretensões.
Ainda na adolescência, ao me deparar com o livro “Pedagogia do Oprimido”, tive o primeiro contato com o educador Paulo Freire. Naquele momento identifiquei-me com o título, afinal, qual adolescente não se sente oprimido? No entanto, conforme fui me aprofundando no assunto – dentro de minhas limitações – percebi que este era bem mais amplo e complexo do que a pedagogia para aborrecentes... e assim, resolvi deixá-lo para mais tarde.
Alguns anos depois, o “mais tarde” chegou. A metodologia Paulo Freire consiste, resumidamente, numa proposta para a alfabetização que leva em consideração o próprio contexto do indivíduo, buscando alfabetizá-lo com palavras comuns ao seu meio habitual. Segundo Paulo Freire, por exemplo, uma pessoa que vive em situações sócio-econômicas precárias e que jamais andou de avião, não deveria ser alfabetizada com a palavra “avião”. Inicialmente seria feito um levantamento do universo vocabular do grupo no qual aquela pessoa estivesse inserida, e posteriormente, tais palavras seriam trabalhadas de acordo com a riqueza fonética e seu significado, contextualizando-as dentro daquela realidade. Este método tornaria o ensino mais interessante e eficaz.
Já de imediato, não concordei com tal metodologia. Isto não seria uma forma de segregação de grupos formalmente? Como seria justo educar pessoas de forma diferente, já supondo que suas realidades jamais poderiam, direta ou indiretamente, coincidir? Quer dizer que um grupo de pessoas cujas famílias fossem desagregadas, e que não teriam a oportunidade de comer uva, jamais poderiam ser educadas com a frase “vovó viu a uva”? Ainda era criança quando aprendi a palavra “caviar” e até hoje não o comi (e nem pretendo)... mas seria um absurdo não identificá-lo quando o visse. Aquela pessoa que nunca andou de avião, tem que aprender esta palavra sim, após saber o seu significado... desta forma, o avião estará inserido em seu mundo, e em seu vocabulário. O conhecimento traz o discernimento para nossas escolhas... e o nosso mundo é aquilo que conhecemos.
No entanto, nunca me senti confortável em criticar um dos maiores educadores de nosso país, principalmente porque toda sua obra reflete uma grande preocupação com o social, com os menos favorecidos, o que por si só, já o faz uma grande pessoa. É difícil encontrar opiniões contrárias. Assim, fiquei aguardando que o tempo fizesse com que eu mudasse – pelo menos em parte – de idéia.
Num dia destes, li um artigo interessante da Universidade de Brasília sobre o índice de adesão ao tratamento dietético em pacientes portadores de Diabetes Mellitus. Dos pacientes analisados, verificou-se uma não adesão em torno de 55%. Os pacientes com melhor grau de escolaridade eram mais aderentes, sendo que os analfabetos (29% da população estudada) estavam no grupo dos menos aderentes. Quando foram analisados os motivos para isto, verificou-se que 38% dos pacientes simplesmente não entendiam como o tratamento deveria ser feito. Concluiu-se então, que uma “educação nutricional” seria fundamental para uma maior aderência.
Além do Diabetes Mellitus, estudos referentes à adesão no tratamento anti-hipertensivo mostram que cerca de 50% dos pacientes submetidos à terapia também não são aderentes. Dentre os fatores que interferem na adesão, embora o índice sócio-econômico não seja fator independente, alguns fatores estão bem estabelecidos, como analfabetismo, baixo nível educacional e econômico. O problema da não adesão ao tratamento estende-se ainda para outras doenças. Recentemente, o Presidente do departamento de aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia afirmou que a adesão ao tratamento da dislipidemia no Brasil é muito baixa.
Pensando na gravidade destes dados, Paulo Freire surgiu (sorrindo) em minha mente... afinal, todos estes dados estavam relacionados à própria educação, porém no que se refere à saúde. Esta questão me fez pensar que mesmo ampliando o atendimento médico à população, assim como o acesso aos medicamentos distribuídos na rede pública, isto não é suficiente para melhorarmos os índices de saúde. Ampliar o atendimento e a distribuição de medicamentos não significa ampliar o conhecimento do indivíduo sobre sua própria doença. Sem este conhecimento, é possível um tratamento eficaz? É bem possível que os altos índices de não adesão, estejam em parte, relacionados a esta questão.
Teoricamente, o médico deve explicar o tratamento ao paciente antes de prescrevê-lo. Explicar de forma clara, objetiva, escrevendo na receita os medicamentos de forma legível... tudo isto é mandatório na prática. Mas... até onde vai o “teoricamente”? Qual o limite na prática médica entre se preocupar com o que “se deve fazer” pelo paciente e se preocupar com o que “realmente será feito” por ele? O que é claro para alguns, pode não ser para outros. A mesma explicação de um tratamento pode ser clara para um paciente e totalmente nebulosa para outro.
Caberia ao médico então, introduzir na prática médica, uma linguagem que se adapte à realidade do paciente? Levar para dentro do consultório certos elementos presentes no contexto do paciente, de forma a tornar mais claro seu tratamento?
Torna-se evidente, neste momento, que este pensamento consiste na metodologia Paulo Freire aplicada à prática médica. Para que um paciente se cuide adequadamente, é necessário que ele entenda a importância da profilaxia na prevenção, o significado de sua doença para aderir ao tratamento, e a forma de prosseguir evitando danos maiores. Tudo isto parece muito simples, mas se formos pensar naqueles índices de não adesão mencionados, veremos que é necessário mais do que o médico e o paciente frente a frente. É necessário, que entre eles haja uma ponte de comunicação.
Se continuo discordando da metodologia Paulo Freire na alfabetização do indivíduo, hoje vejo que sua aplicação na relação médico-paciente encontra seu lugar, afinal, neste caso os resultados precisam ser imediatos. Dentro do consultório, pessoas que jamais comeram uva, não tiveram avós, ou jamais viram um avião, ocuparão a mesma cadeira de quem já conhece tudo isto. Resta ao médico então decidir entre “fazer o seu papel” ou fazer mais do que isto, conseguindo enxergar dentro de cada pessoa, todo o contexto social que ela carrega. Abrir as portas do consultório para uma linguagem mais acessível, assim como para toda uma equipe multidisciplinar, quem sabe não fará com que aquele paciente pouco instruído, pelo menos em relação à sua saúde, tenha um pouco mais de conhecimento.
COMENTÁRIO: Dra. Andrea (que tem um blog que eu recomendo a todos) toca em uma questão fundamental e que às vezes é tratada como 'tabu' por alguns 'PHDeuses' da medicina: A quem pertence o saber científico? Somos nós os profissionais os "donos do saber"? Ou seremos apenas aqueles que - solidariamente - caminhamos ao lado de nossos semelhantes e ajudamos a sua compreensão?
Nos últimos tempos tenho tido oportunidade de trabalhar em capacitação de pessoas na área da saúde. É impressionante o quanto os resultados são significativamente melhores quando exercitamos o trabalho de forma "problematizada", empregando os saberes dos participantes do grupo (pitadas de Freire, com molho de Piaget). Nos últimos tempos tem sido cada vez mais raro eu ter que fazer alguma "apresentação dialogada" ou uma "leitura dirigida de texto base". Quase sempre os objetivos são alcançados pelo próprio grupo sem necessidade de intervenção do tutor.
Dá trabalho, mas é muito gratificante.
Agora imaginem só se nós tivéssemos oportunidade de trabalhar em Educação em Saúde com as técnicas do Paulo Freire. Nada de palestras, nada de apostilas, nada de "lições". Apenas troca de experiências. O nosso semelhante (circunstancialmente transformado em 'paciente') apropriando-se do conhecimento sobre a sua condição de saúde e contribuindo ativamente para a sua transformação e o seu crescimento pessoal...
Acho que não é o Paulo Freire indo ao médico, mas o médico indo ao Paulo Freire...
Nos últimos tempos tenho tido oportunidade de trabalhar em capacitação de pessoas na área da saúde. É impressionante o quanto os resultados são significativamente melhores quando exercitamos o trabalho de forma "problematizada", empregando os saberes dos participantes do grupo (pitadas de Freire, com molho de Piaget). Nos últimos tempos tem sido cada vez mais raro eu ter que fazer alguma "apresentação dialogada" ou uma "leitura dirigida de texto base". Quase sempre os objetivos são alcançados pelo próprio grupo sem necessidade de intervenção do tutor.
Dá trabalho, mas é muito gratificante.
Agora imaginem só se nós tivéssemos oportunidade de trabalhar em Educação em Saúde com as técnicas do Paulo Freire. Nada de palestras, nada de apostilas, nada de "lições". Apenas troca de experiências. O nosso semelhante (circunstancialmente transformado em 'paciente') apropriando-se do conhecimento sobre a sua condição de saúde e contribuindo ativamente para a sua transformação e o seu crescimento pessoal...
Acho que não é o Paulo Freire indo ao médico, mas o médico indo ao Paulo Freire...
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