Anton Corbjin/Reprodução
Chegam ao mercado brasileiro dois livros que contam a história da banda Rolling Stones a partir de pontos de vista opostos: o dos próprios integrantes e o de um fã de carteirinha
JULIANA GIRARDIEm maio do ano que vem, os Rolling Stones completam cinco décadas de atividades e, a julgar pelos lançamentos que, aos poucos, já vêm chegando às lojas brasileiras, se você é fã da banda, melhor começar a guardar uns bons trocados por mês.
Lançada no exterior em 2003, chegou ao Brasil há poucas semanas, pelas caprichosas mãos da editora Cosac Naify, a biografia autorizada According to The Rolling Stones: a Banda Conta Sua História. Em edição luxuosa – são mais de 300 páginas em papel cuchê, com direito a capa dura com a logo da banda impressa em baixo relevo –, o livro cobre as quatro primeiras décadas de trajetória do grupo, a partir de depoimentos de Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood, colhidos durante a turnê do disco comemorativo Forty Licks (2002).
Relato de um sobrevivente
Outro lançamento que chegou recentemente às prateleiras nacionais faz um contraponto bastante interessante à caprichada (e autorizada) biografia According to the Rolling Stones (Cosac Naify). Trata-se de Under Their Thumb, relato do fã nova-iorquino Bill German, criador do fanzine oficial do grupo, Beggars Banquet.
Basta dar uma lida no subtítulo para perceber a diferença gritante entre as duas obras: “Como um bom garoto se misturou com os Rolling Stones (e sobreviveu para contar)”. Graças ao fanzine em que relatava os passos e a vida pessoal de seus ídolos, criado quando German tinha apenas 16 anos, ele acabou realizando o sonho de qualquer fã de Stones que se preze: bebeu vinho com Ron Wood, passou a noite assistindo a vídeos com Keith Richards e conviveu com celebridades e outros gigantes do rock-and-roll.
Mas nem tudo veio assim fácil. Entre as histórias narradas por German, estão sua difícil convivência com os agentes, empresários e seguranças da banda, bem como a complicada tarefa de aturar os chiliques do instável Mick Jagger e as guerras de ego que quase acabaram com os Stones nos anos 80. Há também passagens hilárias, como a da ocasião em que German praticamente fugiu de sua primeira relação sexual para conseguir comprar um disco de sua adorada banda.
Sincero, verdadeiro e nada deslumbrado, Under Their Thumb apresenta o retrato de um sonho romântico e perigoso, cercado de groupies, traficantes e empresários cheios da grana, todos disputando um lugar permanente ao lado da sagrada família Stones. “Algumas [dessas pessoas] ainda estão lá, e algumas foram levadas embora de algemas ou em caixões. Tenha muito cuidado com o que você deseja”, alerta. (JG)
Serviço
Under Their Thumb: Como um Bom Garoto Se Misturou com os Rolling Stones (e Sobreviveu para Contar). Tradução de Renato Rezende e Aline Tenório Cordeiro. Nova Fronteira. 504 págs., R$ 44,90. Biografia.
Para isso, dois entrevistadores seguiram a banda passo a passo, de São Francisco e Los Angeles, até Melbourne e Tóquio: Rob Bowman, acadêmico canadense especialista em blues e rock-and-roll e o premiado letrista inglês Tim Rice.
O resultado dessa maratona de entrevistas foi organizado por Dora Loewenstein (filha do gerente financeiro da banda, o príncipe Rupert Loewenstein) e o escritor Philip Dodd (que compilou outra biografia da banda, The Rolling Stones: A Life on the Road, em 1998) – tudo sob a sempre discreta supervisão do baterista Charlie Watts. Assim, According to The Rolling Stones acaba por investigar desde as inspirações que os levaram a se tornar músicos e os fatos que tiveram impacto no desenvolvimento musical e pessoal de cada um, até as reminiscências dos integrante quanto ao sucesso e a longevidade da formação.
“Não se trata de um relato diário e obsessivo de cada apresentação, cada canhoto de ingresso, cada lado B. Este livro reflete o modo como os próprios Stones se lembram dos fatos e das emoções que se gravaram mais fortemente em sua memória individual e coletiva”, explica a organizadora, no prefácio da obra.
Imagens
Além das corretas entrevistas que compõem o livro – aqui, os Stones no máximo falam de suas primeiras groupies e dos excessos com drogas nos anos 70 –, o que mais deve atrair a atenção dos fãs é o tratamento gráfico da edição. A história “oficial” da banda é ilustrada por mais de 300 fotos, registradas por grandes fotógrafos que trabalharam com o grupo ao longo de sua carreira, entre eles, David Bailey, Anton Corbjin, Gered Mankowitz, Pennie Smith e Mario Testino. Entre as imagens nunca antes vistas, estão também fotos saídas dos arquivos pessoais dos músicos, verdadeiras relíquias.
Dividido em 12 capítulos, According to The Rolling Stones conta ainda com um time de colaboradores de peso, cujos textos servem como uma espécie de transição entre cada uma das “fases” da banda descritas na biografia. Estão lá os depoimentos de gente como Ahmet Ertegun (fundador da Atlantic Records), Giorgio Gomelsky (criador do Crawdaddy Club), Don Was (atual coprodutor da banda) e até da cantora Sheryl Crow, que abriu os shows das turnês Bridges to Babylon e Forty Licks.
Embora autorizada e um tanto bem comportada– só estão presentes os fatos que Mick, Keith, Charlie e Ronnie tiveram vontade de revelar – a biografia vale pela honestidade dos depoimentos, em especial os do espontâneo guitarrista Keith Richards, que, na época da publicação original de According to The Rolling Stones, já devia estar selecionando as histórias que narra tão bem em sua autobiografia Vida (Globo), publicada no ano passado.
Serviço
According to the Rolling Stones: a Banda Conta Sua História, organização de Dora Loewenstein e Philip Dodd. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Cosac Naify. 360 págs., R$ 119. Biografia.
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