Páginas

quinta-feira, 28 de março de 2013

O médico fumante e a luta antitabágica

no site Dr Teuto


O tabagismo é uma das principais causas preveníveis de morbidade e mortalidade no mundo. Cinco milhões de pessoas morrem por ano no mundo devido ao consumo de cigarros. No Brasil morrem 200 mil. Se esse quadro não puder ser revertido, a estimativa da Organização Mundial da Saúde é de que 10 milhões de mortes em 2030 serão diretamente relacionadas ao tabagismo e 70% delas acontecerão em países em desenvolvimento (1). 

Contudo, considera-se que o Brasil possui um dos programas de controle do tabagismo mais avançados do mundo. A prevalência de fumantes no país foi reduzida de 32% em 1989 para 19% em 2003 (1,2). A luta antitabágica está, em grande parte, alicerçada nos profissionais da área da saúde e, especialmente, nos médicos. Esta categoria tem papel determinante na prevenção e na luta antitabágica.



O hábito de fumar de médicos, dentistas, enfermeiros e outros profissionais de saúde continua a atrair grande interesse entre os pesquisadores clínicos. Embora os inquéritos nacionais mostrem que a classe médica brasileira fuma menos que a de outros países, a prevalência de tabagismo é ainda incompatível com a condição de profissionais da saúde (3). Em estudo realizado por estes autores entre médicos do Rio Grande do Sul, constatou-se uma prevalência de tabagismo atual de 18,3%. 

O aconselhamento de cessação do tabagismo pelos médicos pode diferir entre os profissionais que fumam e os que pararam ou nunca fumaram. O tabagismo entre médicos pode afetar as interações com os pacientes no que diz respeito a aconselhamento sobre o tabagismo. No estudo ‘Smoking: The Opinions of Physicians’ (STOP) analisou-se se existia uma associação entre o fato de o médico ser fumante e a cessação de tabagismo entre pacientes, verificando-se que médicos fumantes são menos predispostos a iniciar intervenções de cessação (4).

Portanto, é importante levar em conta o tabagismo médico na concepção de programas de cessação desse vício pode melhorar as intervenções de aconselhamento de cessação (5). Médicos são considerados uma fonte confiável de informação entre os pacientes e seu aconselhamento tem um forte impacto sobre a motivação do paciente. Estudos têm mostrado que o conselho de um médico é o mais forte determinante de práticas preventivas pelos pacientes (6). Mesmo quando os médicos fornecem conselhos simples e breves sobre parar de fumar, essa intervenção aumenta a probabilidade de que alguém que fuma consiga parar e continue a ser um não-fumante 12 meses depois da cessação. Fornecer apoio e acompanhamento depois de oferecer o conselho pode aumentar as taxas de abandono (5).

Em uma meta-análise sobre esta temática, foram identificados 41 estudos realizados entre 1972 e 2007, incluindo mais de 31.000 pessoas fumantes. O recebimento de conselhos pelos entrevistados foi mais frequente na atenção básica, seguida pelo atendimento em enfermarias e ambulatórios da atenção terciária. Os dados colhidos de 17 estudos em que houve aconselhamento breve em comparação com nenhum conselho (ou cuidado habitual) associou-se a um aumento significativo na taxa de abandono (7).

O aconselhamento médico constante é eficaz na luta antitabágica e o médico pode interferir no processo de motivação do paciente fumante. Contudo, para que essa intervenção tenha maior probabilidade de ser eficiente, o médico tem que ser o exemplo. Um tabagista dificilmente será convencido a abandonar seu hábito se o seu médico for fumante. Todos os médicos devem aproveitar a oportunidade de um atendimento para aconselhar os tabagistas a parar de fumar durante consultas de rotina, além de encorajar e ajudar os fumantes no uso de terapias de reposição de nicotina ou uso de bupropiona, além de encaminhar o fumante para conselheiros profissionais comportamentais ou psicólogos especializados em cessação do tabagismo.

A maioria dos médicos classificam o tabagismo como o comportamento de risco mais importante que afeta a saúde, mas poucos adotam abordagens sistemáticas para ajudar na cessação do tabagismo. O primeiro passo, no caso do médico tabagista, parece ser dar seu exemplo.



Referências

1- MEIRELLES, R. H. S. A ratificação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco pelo Brasil: uma questão de saúde pública. J. bras. Pneumol 32 (1): 0-0, 2006.

2- CAVALCANTE, T. M. O controle do tabagismo no Brasil: avanços e desafios. Rev. Psiq. Clín. 32 (5); 283-300, 2005

3- HALTY, L. S.; HUNTTNER, N. T.; OLIVEIRA NETTO, I. et al. Pesquisa sobre tabagismo entre médicos de Rio Grande, RS: Prevalência e perfil do fumante. J. Pneumologia 28 (2): 77-83, 2002.
4- MESHEFEDJIAN, G. A.; GERVAIS, A.; TREMBLAY, M. et al. Physician smoking status may influence cessation counseling practices. Can J Public Health. 101(4):290-3, 2010
5- PIPE, A.; SORENSEN, M.; REID, R. Physician smoking status, attitudes toward smoking, and cessation advice to patients: an international survey. Patient Educ Couns 74(1):118-23, 2009

6- ZIMMERMAN, G. L.;OLSEN, C. G.; BOSWOERTH, M. F. A ‘Stages of Change’ Approach to Helping Patients Change Behavior. Am Fam Physician, 61(5):1409-162000.
7- CUMMINGS, K. M.; GIOVINO, G.; SCIANDRA, R.etal. Physician advice to quit smoking: who gets it and who doesn´t. Am J Prev Med, 3(2):69-75, 1987.
8- STEAD, L. F.; BERGSON, G.; LANCASTER, T. Physician advice for smoking cessation. Cochrane Database Syst Rev 16;(2):CD000165, 2008.

Nenhum comentário:

Postar um comentário