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domingo, 6 de outubro de 2013

Taxa sobre remédios coloca em risco tratamento de crianças com câncer na Espanha, diz associação

Para ativista, novos custos podem inviabilizar continuidade de tratamento quando pacientes têm alta de hospital

no Opera Mundi


A nova taxa aplicada a medicamentos vitais para o tratamento de pessoas que sofrem de doenças crônicas como câncer, artrite, hepatite e esclerose múltipla ligou o sinal de alerta em diferentes grupos e associações na sociedade civil espanhola. Apesar de o governo central ter instado as Comunidade Autônomas a iniciarem a cobrança no dia 1o de outubro, nenhum governo local começou a cobrar o valor estipulado pela administração do Partido Popular (PP).

Em entrevista a Opera Mundi, Carmen Menéndez, coordenadora da comissão de Saúde da Federação Espanhola de Famílias com Crianças com Câncer, explicou que este é pelo menos o terceiro aumento nos custos destas famílias afetadas em menos de um ano. Em um país onde o salário mínimo é de 752,85 euros, ela afirma que os gastos deste grupo, antes da mais nova taxa, chegavam a 500 euros mensais.

Opera Mundi: Como funciona a Federação Espanhola de Pais com Crianças com Câncer?
Carmen Menéndez: Nós somos representantes de praticamente todas as crianças que têm um problema de câncer na Espanha. Nossa federação tem 16 associações em diferentes Comunidades Autônomas, estamos em praticamente todas. E as famílias são tratadas em hospitais de referência, que não estão em todas as cidades em que vivem as crianças. Elas têm que se deslocar às vezes e [suas famílias] têm que assumir uma quantidade de gastos adicionais que, com a situação de crise econômica, coloca em risco a continuidade do tratamento de seus filhos.

Rafael Duque/Opera Mundi
Associação de Carmen Menéndez faz parceria com outras para tentar barrar impantação de nova taxa

OM: Qual é a posição da federação em relação a esta nova taxa?
CM: Somos totalmente contrários a esta taxa. As famílias estão assumindo outras taxas que neste mesmo ano as obrigaram a pagar, como o transporte não urgente.  As crianças necessitam se deslocar ao hospital várias vezes ao ano, às vezes para a indicação de tratamento ou para receber quimioterapia, e este transporte não urgente agora também tem um preço e antes não tinha. Eles também têm que assumir parte do preço das próteses para membros que tenham sido amputados ou usem cadeiras de roda. E então é claro que esta taxa a mais se soma às muitas que ultimamente estão cobrando das famílias.

OM: Como a federação irá atuar para tentar mudar este cenário? É possível fazer alguma coisa?
CM: Sempre se pode fazer algo. Vamos entrar em contato com o Ministério da Saúde para justificar a nossa negativa a esta taxa pelo prejuízo que irá causar às famílias. E em todos os meios de comunicação estamos, todos os dias, dando as nossas razões. Esperemos que tanto o Ministério como as Comunidades Autônomas reflitam e voltem atrás em relação a esta lei que foi elaborada de surpresa, sem consultar ninguém e sem examinar o prejuízo que pode causar. E assim minimizem o impacto que isto terá ou possa ter nas crianças.

OM: Vocês estão em contato com outros grupos afetados pela nova lei?
CM: Nós estamos em contato com nossas associações. Somos membros também de grupos grandes e de associações de pessoas com deficiências. Por exemplo, a Confederação Espanhola de Pessoas com Deficiência Física e Orgânica tem 1,6 mil associações que são membrom. Nós estamos dentro deste grupo também.

OM: Vocês têm alguma estimativa de quantas famílias serão afetadas por esta medida?
CM: O número de famílias que podem ser afetadas a partir de agora eu não poderia dizer. O que eu posso afirmar é que nós temos 14 mil usuários que atendemos, incluindo a família completa: pai, mãe e crianças. Damos-lhes atenção psicológica, trabalho social e analisamos a situação econômica. Outro dado que posso dar é que o número de crianças afetadas por câncer não é muito alto, mas temos 1,3 mil novos casos a cada ano.

OM: Quanto uma família que possui uma criança com câncer gasta mensalmente com o tratamento?
CM: O gasto médio mensal para uma família afetada pode ser de 500 euros. É preciso ter em conta que muitas famílias se deslocam de seu lugar habitual de domicílio para buscar tratamento nos hospitais. Há famílias que perdem o trabalho para cuidar de seus filhos. [Algumas famílias] estão em uma situação crítica.

OM: E esta nova taxa supõe um aumento de quantos euros nos gastos dessas famílias?
CM: Eu não posso quantificar porque [o valor] é muito diferente dependendo da patologia, da doença de cada criança. Existem crianças que podem, ao sair do hospital, ter que continuar o tratamento em suas casas. Isso pode representar a compra de quatro a dois medicamentos, que devem ser retirados nas farmácias hospitalares e que podem representar dez euros ou o dobro. Às vezes até mesmo o triplo, dependendo do tratamento de cada criança e dependendo também do tempo que tenham que tomar este tratamento. Ou seja, há muita diferença.

O que eu posso afirmar é que estão tentando há anos deixar as crianças hospitalizadas o menor tempo possível.  Às vezes é uma medida que pode beneficiar as crianças, mas beneficia principalmente os hospitais. Cada dia que elas não estão nos hospitais é uma economia para a administração e esta economia é grande. Mas, se além de economizar nisso, cobram o tratamento dado às crianças em casa, um tratamento vital... Não é uma aspirina [...], este tratamento é vital para eles. [Com esta medida]  eles querem conseguir mais dinheiro, que, além do mais, vai representar um aumento pequeno para eles e vai incidir nas pessoas mais vulneráveis. As crianças não são como os adultos, que podem trabalhar ou ter auxílio-desemprego. As crianças devem ser protegidas por toda a sociedade. E a sociedade é representada pela administração pública, eles não podem se esquivar deste compromisso.

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