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sábado, 7 de junho de 2014

Desde o começo de 2013, seis moradores de rua foram mortos de forma violenta em Curitiba

Caso registrado nesta sexta-feira (6) é o sétimo em pouco mais de um ano; vítima está na UTI

na Gazeta do Povo

Está virando rotina. Desde o começo de 2013, Curitiba registrou sete ataques violentos a moradores de rua - seis pessoas foram mortas. O último deles aconteceu na noite de quinta-feira (5), quando dois suspeitos atearam fogo em um homem, ainda não identificado, que está internado em estado gravíssimo na UTI do Hospital Evangélico.

Imagens gravadas por uma câmera de monitoramento mostram o momento em que os suspeitos caminham pela Rua Pedro Ivo, perto do cruzamento com a Rua Desembargador Westphalen, param perto de um outro morador de rua e, poucos segundos depois, seguem adiante. Então eles chegam até a vítima, jogam líquido inflamável sobre seu corpo e o incendeiam.


Sobre os possíveis autores, a delegada chefe da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, Maritza Haisi, acredita que não seriam moradores de rua. "Pelas imagens, aparentemente eles não eram moradores de rua. Com a investigação vamos levantar se eles já conheciam a vítima".

Relato

O homem foi encaminhado ao Hospital Evangélico, onde chegou ainda consciente. Segundo o cirurgião José Luiz Takaki, o paciente teve queimaduras de segundo e terceiro graus na cabeça, rosto, tórax e no braço direito. Ainda conversando, a vítima contou como sofreu as queimaduras. “Ele disse que dois homens jogaram um líquido inflamável sobre ele e, em seguida, acenderam o fogo”, disse o médico.

A vítima teve 35% do corpo queimado. “Somente após 15 dias, quando passar a fase de trauma, é que poderemos ter um prognóstico de sobrevida”, apontou Takaki. “Mas essas primeiras 72 horas são fundamentais”, acrescentou.

Algumas testemunhas que passavam pelo local ajudaram a socorrer o homem. Um motorista teria parado e utilizado o extintor do carro para conter o fogo. O uso do extintor, porém, agravou ainda mais as queimaduras por causa da composição química, de acordo com o Evangélico.

Identificação

A Polícia Civil ainda não confirmou a identidade do morador de rua, mas, a princípio, o nome dele seria Nilson Barbosa. Ele teria aproximadamente 33 anos. Com essa identificação, há possibilidade de que o homem tenha passagens pela polícia. Mas a DHPP esclarece que esta identidade depende de confirmação de dados.

Duas mulheres estiveram no hospital ontem, acreditando que a vítima seria irmão delas. Uma delas confirmou a identidade e a outra não. “Ele estava com o rosto muito inchado por causa das queimaduras, então ela não teve certeza”, disse o cirurgião. Nos registros da Fundação de Ação Social (FAS) consta que ele já teria sido atendido duas vezes por agentes do resgate social, em 2003 e 2011, mas não aceitava os serviços.

Na rua onde o caso foi registrado, nas proximidades da Praça Rui Barbosa, comerciantes e moradores demonstram estar assustados. "Pensaram que tinha sido comigo", diz o guardador de carros José Severino, que trabalha na região há 10 anos. Ele conta que às vezes dorme na mesma rua e sempre tem medo de que alguma coisa possa acontecer. "Uma vez um grupo veio pra cima de mim com um galão, eu fiquei com medo, agitei o cobertor e eles foram embora", afirma. "A vida na rua é muito difícil".

ÚLTIMOS CASOS


16/fev/13 – José Carlos Faria, de 39 anos, dormia sob uma marquise, na Rua Euclides Bandeira, Centro Cívico, quando teve o corpo incendiado. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu. Situação: caso não solucionado.

17/fev/13 – Daniel Gonçalves Ramos, de 30 anos, conhecido como “Gordinho”, foi assassinado a golpes de faca. Outro morador de rua se entregou à polícia, disse ter sido o autor do crime, motivado por “vozes” que ouvia. Situação: elucidado.

30/out/13 – Uma briga entre homens que vivem nas ruas terminou com a morte de Maicon Loan Bandeira, de 23 anos, que foi esfaqueado, no Centro. O autor do crime foi identificado como Fábio Rodrigues Alves, que segue foragido. Situação: elucidado.

30/nov/13 - Eli Marcos Galdino, 46, morreu vítima de diversas facadas na Praça Rui Barbosa. À época, a polícia chegou a divulgar um vídeo, onde apareciam um homem e uma mulher como suspeitos. O assassino foi identificado como Wesley de Souza Alves, que também seria morador de rua. Situação: identificado.

23/dez/13 – Um morador de rua não identificado, de aproximadamente 60 anos, morreu depois de ter sido agredido e de ter o corpo incendiado, no bairro Portão. Situação: caso não solucionado.

24/fev/14 – O carrinheiro Antônio Ribeiro Cordeiro, o “Bocão”, de 25 anos, foi morto a pedradas, nas imediações do Teatro Guaíra. O assassino foi identificado como Ivo de Oliveira Lima, outro morador de rua que queria roubar dinheiro que a vítima guardava. Situação: Elucidado.

ENTIDADES VÃO PRESSIONAR POR INVESTIGAÇÃO


Em fevereiro, o carrinheiro Antônio Ribeiro Cordeiro, de 25 anos, conhecido como “Bocão”, foi morto a pedradas, próximo ao Teatro Guaíra. Ele morava na rua e vivia nas imediações da Praça Eufrásio Correia, onde era conhecido por moradores, comerciantes e frequentadores do teatro. Bocão foi o último morador de rua assassinado em Curitiba. Desde fevereiro de 2013, outros cinco homens que vivam nas ruas foram mortos na capital.

Dos seis casos registrados no último ano e meio, a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) considera quatro deles já elucidados, com indicação de autoria do crime (o que não significa que o assassino foi preso). Os quatro, segundo as autoridades, foram motivados por brigas ou desentendimentos entre moradores de rua. “Esses moradores de rua trabalham e guardam com eles algum dinheiro e isso pode motivar o crime, ou podem acontecer desentendimentos entre eles, potencializados pelo uso de entorpecente ou bebidas. De todos os casos, nenhum está relacionado a preconceito”, disse a delegada Maritza Haisi, chefe da DHPP.

Márcia Fruet, secretária da Fundação de Ação Social (FAS), critica a tendência de as investigações que envolvem moradores de rua concluírem que a autoria é de outros moradores, o que daria por encerrado todo o processo de apuração de maneira muito rápida. "Tudo se resolve dizendo que é briga de moradores de rua. Temos muitos casos que foram resolvidos desse jeito. A investigação tem que ser feita, não pode tirar conclusão tão rápida. Não se pode limitar a investigação a uma suposição", ressalta.

Ela conta que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Ministério Público do Paraná e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa estão se articulando para cobrar a investigação do caso. "Se se confirmar que foi outro morador de rua, tudo bem. Mas não pode concluir isso e não fazer mais nada".

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