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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

À sombra de Raul ou Let me sing my rock and roll


Um olhar sobre a influência que a obra do cantor e compositor Raul Seixas ainda exerce sobre nós, mesmo vinte anos após sua morte

Um olhar sobre a influência que a obra do cantor e compositor Raul Seixas ainda exerce sobre nós, mesmo vinte anos após sua morte

Aldo Gama da Redação do Brasil de Fato

Normalmente, cumprir o percurso do Terminal Princesa Isabel ao Paraíso, de ônibus, às seis da tarde, numa sexta-feira comum, consome cerca de 75 minutos da vida do morador da capital paulista. A irritação e o cansaço das pessoas espremidas é quase tangível. A cada parada, desafiando as leis da física, sobem mais passageiros do que descem.

Entalado entre a parede do coletivo e a passageira do lado, uma "ligeiramente" muito acima do peso Sandrinha, caixa do Mercado Campos Elyseos, Carlos Alberto conseguiu retirar seu violão da capa. Colocando o braço do instrumento na vertical, único movimento possível, juntou os dedos da mãos esquerda sobre as cordas de aço enferrujadas e, com uma palhetada seca, arrancou um quase Lá do instrumento.

– Eu prefiro sê-êr...

Apertados dentro do coletivo, tripulantes e passageiros reagiram de formas distintas. Sandrinha separou as bochechas rechonchudas com um sorriso. Algumas meninas em roupa de colégio riram e aplaudiram. Chico, cobrador do ônibus, fechou os olhos sem forças para pedir silêncio. Adalberto, eletricista, se desesperou e pensou na morte.

Ana Carolina e Isabela, as meninas de uniforme, não conheciam aquela música. Também é correto afirmar que não conheciam Raul Seixas. Muito menos sabiam que ele a havia gravado em “O dia em que a Terra parou”, de 1978, seu sexto álbum solo.

A seu favor, verdade seja dita, as duas podiam utilizar como argumento, no caso de acusadas de ignorância, que a obra havia sido lançada “muito tempo” antes delas terem nascido. E “muito tempo”, nesse caso, significa os 15 anos que separam 1978 de 1993, ano do nascimento das duas.

Assim, mesmo evitando eufemismos para a palavra ignorância, é possível afirmar com segurança que as duas desconheciam a música, seu autor e, sem qualquer sombra de dúvida, o voluntarioso, mas desafinado, intérprete. Também desconheciam o significado da palavra “voluntarioso”, o que não afeta em nada os resultados da última rodada do campeonato capixaba de futebol, mas diz algo sobre a qualidade do ensino médio nas escolas públicas paulistas.

– ...Essa metamorfose ambulante...

Ainda com os olhos fechados, Chico viu chegar à sua mente, lutando contra a foto da Juliana Paes que havia visto em uma banca de jornal na Avenida Angélica, a imagem de um homem todo vestido de branco, com bigode e cavanhaque mal aparados, em pé, diante de uma praia, tendo ao horizonte o nascer ou pôr do sol. Mas isso durou poucos segundos, porque logo a bela atriz de pele morena expulsava o barbudo de cena e reinava absoluta em sua imaginação.

Desconsiderando os intrincados caminhos do inconsciente, se fosse o caso de esclarecer o mistério, Chico poderia facilmente encontrar os botões que haviam acionado as engrenagens que, mesmo sem sucesso, haviam colocado um cara de barba onde só deveria estar uma morena de sarongue, como ele equivocadamente chamava o sari, traje tradicional das mulheres indianas.

Ao contrário das meninas, Chico sabia quem era Raul Seixas. Não eram íntimos, mas ele conhecia uma canção ou outra. Aquela que estava sendo assassinada no ônibus, por exemplo, se chamava “Metamorfose Ambulante”. Assim, mesmo sem se dar conta, os impulsos elétricos de seu cérebro conduziram as coisas à revelia do dono da cabeça, numa cadeia de associações: chato tocando violão, metamorfose ambulante, Raul Seixas, férias, tia Lourdes, Florianópolis, frescobol, prima Ana Maria, primeiro beijo, toca-discos, capa de disco e Raul Seixas.

E de fato existe uma capa de disco de Raul com essa imagem. Chama-se “Abre-te Sésamo”, e é de 1980, ano anterior às férias em que lascou um beijo na prima desprevenida. “Metamorfose Ambulante” não é desse álbum, mas “Rock das Aranhas” é. Hoje, com alguma malícia, Chico diria que a música inspirou o beijo. Hoje, sem qualquer malícia, Ana Maria diria que o primo é uma besta.

– ...Do quer ter aquela velha opinião...

Adalberto não podia dizer que havia sido vítima dos desvios da vida. Não podia porque, de uma maneira geral, gostava da vida que levava. Era eletricista porque queria. Entre fios, multímetros e soquetes, sua vida se completava. Mas detestava ônibus cheio. Detestava mais ainda gente que falava alto em ônibus cheio. Cantar ultrapassava qualquer limite de bom senso. Cantar Raul, então, era uma ofensa. E nesse último caso, pelo menos, tinha alguma razão.

Numa tarde fria de um sábado perdido no meio de outros dias do mês de julho de 1995, Adalberto caminhava com Regina pelo Parque da Água Branca, onde sempre iam porque era perto da estação Barra Funda do metrô. Ele bebericava uma cerveja e ponderava entre comprar um saquinho de pipocas ou comer um sanduíche de calabresa no bar ao lado do parque. Não conseguia se decidir porque estava preocupado com o silêncio da noiva. Silêncio quebrado impiedosamente pelas palavras “preciso te contar uma coisa”.

O drama, embora novela das seis, deixou marcas de especial de Roberto Carlos. Ali, sozinho, sentado em um banco do parque, vendo um pato passar rebolando, debochando de sua tristeza, Adalberto ouvia a música que vinha do radinho de pilha do pipoqueiro. Era o “Carimbador Maluco”, canção que fazia parte do álbum “DDI”, lançado por Raul em 1983.

Por conta do destino, a música que para uma geração significa uma das mais animadas do musical televisivo “Plunct Plact Zuuum”, para Adalberto representa a pior desilusão amorosa de sua vida. E Raul Seixas era o cara que tinha contado que a Regina estava apaixonada pelo Almeidinha.

– ...Sobre o que é o amor...

Sandrinha sorriu para Carlos Alberto porque Sandrinha sorria para tudo e para todos. Dizer que ela era uma pessoa de bem com a vida não reproduzia com veracidade seu estado de espírito normal. Se para a maioria das pessoas o céu estava azul, para Sandrinha ele estava o dia mais lindo do ano. Se diziam que aquela criança era bonita, Sandrinha retrucava que era um anjinho caído céu, que, aliás, estava maravilhoso. Em resumo, Sandrinha era feliz. Tão feliz que irritava.

E nada abatia seu bom humor. Nem horas extras forçadas, nem a briga perdida para a balança. Era “gordinha sim, e daí?”, como costumava dizer. Apesar da figura roliça, sentia-se cobiçada por todos os homens. E de fato o era. Se não por todos, por boa parte. Entre eles Peixoto, representante de vendas de laticínios.

Desde que a conhecera, em uma de suas visitas de trabalho, Peixoto ficara tão loucamente apaixonada que não fazia nenhum plano que não a incluísse. Chegou mesmo a se afastar da turma do futebol, do dominó no clube, do grupo de caminhadas... Bom, se não tinha muito para abandonar não era culpa da Sandrinha. Era dele. E se existisse algo do que pudesse vir a sentir falta em sua vida ele deixaria de lado. Pelo menos foi o que jurou a ela que, no entanto, duvidou que ele alguma vez teria algo emocionante em sua vida.

Cinismo à parte, Sandrinha gostava de verdade de Peixoto. Ela havia caído por ele desde o dia em que foram ao cinema e, na volta, ele cantou, acompanhando o rádio do carro, a música “Gita”, que Raul gravou no disco de mesmo nome lançado em 1974. “Às vezes você me pergunta/Por que é que eu sou tão calado/Não falo de amor quase nada/Nem fico sorrindo ao teu lado”, dizia a canção – o que pareceu irônico, já que Peixoto falava de amor a toda hora. Mas, mesmo assim, ela gostava dele. O que não a impedia de gostar dos outros namorados que tinha.

– ...Se hoje eu sou estrela...

Carlos Alberto era tão fã de Raul que tinha até lido os livros do Paulo Coelho. Todo o pouco dinheiro que ganhava como auxiliar de escritório era gasto com coisas relacionadas ao ídolo. Seu sonho secreto que todo mundo conhecia era ser cantor. Um desses bem famosos que canta na tevê e no carnaval baiano. É claro que ele sabia que Raul não era de samba, carnaval ou axé. Mas ele era. E pronto.

Deus deu a Carlos Alberto muita saúde, astúcia e pais amorosos, mas esqueceu de dar ao jovem qualquer talento musical. Ele era ruim cantando, tocando violão ou mesmo batucando numa caixa de fósforos. O que não o impedia de torturar todos à sua volta com suas interpretações entusiasmadas.

Quando começava a praticar, o que fazia na sala da casa para ter plateia, Carlos Alberto se perdia no mundo das cifras musicais das revistas. Tanto que não percebia que seu pai corria para a padaria da esquina e a mãe ia colocar a conversa em dia com a vizinha do outro lado da rua. Isso porque o relacionamento com a comadre da casa ao lado se estremecera desde que ela dera o violão para o filho.

O maior tesouro de Carlos Alberto era o compacto “Krig-Ha, Bandolo!”, de 1973, que ele ganhara de sua tia Elza. Na capa, Raul aparece sem camisa, com os braços abertos levantados e um medalhão no peito. Essa imagem, associada aos versos de “Metamorfose Ambulante”, que ele agora esquartejava no ônibus, queimaram algum fusível em sua cabeça e ele nunca mais foi o mesmo. Nem a relação de sua mãe com a irmã dela.

– ...Se hoje te odeio...

Chico seguiu a viagem com o pensamento ancorado na Juliana Paes. Adalberto desceu logo que o ônibus apontou na Avenida Paulista. Preferia esperar por outro que, mesmo lotado, não traria lembranças tão cruéis. Sandrinha desceu no ponto da Brigadeiro, onde foi recebida calorosamente por Calixto, muito amigo de Peixoto, mas também muito canalha. No Masp, as meninas desceram e gritaram “toca Raul!” sem nem mesmo perceber que aquilo não fazia o menor sentido. Carlos Alberto continuou massacrando acordes e versos até descer, no Paraíso.

– ...É fácil chegar...

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