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sábado, 31 de outubro de 2009

Acervo da Fiocruz, no Rio, é um dos mais antigos da América Latina

Fernanda Prates, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Espécie animal predominante em número e variedade no mundo, os insetos são muitas vezes vistos como inconvenientes, parasitários ou meros vetores de doenças. Porém, o que muitos não sabem é que a maioria deles é benéfica e que seu estudo – entomologia – é de extrema importância para a medicina, a agricultura, a veterinária e, principalmente, para a manutenção da biodiversidade no planeta.

– Quando se fala em insetos, só lembramos dos que transmitem doenças e pragas – diz Jane Costa, pesquisadora titular e chefe do laboratório de biodiversidade entomológica do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro – mas é importante frisar que a maioria dos insetos é extremamente benéfica e indispensável para a manutenção da vida na Terra.

Jane é curadora da coleção entomológica da Fiocruz, uma das mais ricas e mais antigas da América Latina. Iniciado em 1901, ano em que o próprio Oswaldo Cruz descreveu o mosquito Anopheles lutzi, o acervo possui hoje cerca de 5 milhões de espécimes e continua recebendo novos exemplares.

Segundo Jane, o constante crescimento da coleção é fruto do trabalho de pesquisas que se desenvolvem em quatro grandes áreas da entomologia: a médica, que estuda doenças em humanos; a veterinária, que analisa doenças em animais; a agrícola, relacionada às pragas; e a de biodiversidade, que se dedica aos estudos de diversidade biológica dos animais.

– Essa coleção tem valor científico, histórico, cultural e educativo inestimável – observa Jane Costa – Temos uma coleção viva, que além de base para pesquisas científicas, funciona como um testemunho de biodiversidade do país, da América Latina e até do mundo.

Benefícios

A área da saúde é uma das mais beneficiadas pelos estudos entomológicos. Pesquisas de insetos causadores de doenças como a dengue, a doença de chagas ou a malária, por exemplo, são de extrema importância para a prevenção de seus males:

– Você passa a entender melhor a biologia do vetor, e pode prevenir melhor, por exemplo, invasões de insetos em determinadas áreas – explica Jane. – Trata-se de um estudo fundamental para pesquisas na parte de saúde e monitoramento de doenças.

Além disso, os espécimes mantidos no acervo representam documentos da fauna e da biodiversidade locais, ganhando um valor cultural e educativo ímpar.

Para garantir a integridade desses verdadeiros “documentos biológicos”, os pesquisadores utilizam três formas de manutenção, que vão desde os insetos “alfinetados”, que compõem cerca de 80% da coleção, aos mantidos em álcool e, no caso de estruturas mais frágeis, em lâminas.

Segundo Jane, esses tipos de montagem “clássica” existem desde a história das primeiras coleções, mas atualmente os pesquisadores desenvolveram uma forma de preservar parte do acervo em nitrogênio líquido, de forma a conseguir explorar o patrimônio genético dos animais.

– Um exemplo é a iniciativa recente de pesquisadores da Universidade de Yale que, juntamente com a Universidade de Santa Catarina, a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório de biodiversidade entomológica do Instituto Oswaldo Cruz, conseguiu extrair o DNA de exemplares de mosquitos preservados desde 1930 – explica a pesquisadora.

Divulgação

Para divulgar esse trabalho para o público leigo e as crianças em geral, o instituto promove diversas ações na área da divulgação científica, como aulas e exposições em colégios e universidades, feiras de ciências e até mesmo um website que traz as principais linhas de pesquisa e projetos desenvolvidos na entidade.

Segundo Jane Costa, o apelo visual da coleção já é o suficiente para atrair a atenção das crianças, que ficam “extasiadas com a riqueza de formas, cores e variedade dos animais”. Outro aspecto que chama a atenção é a quantidade de espécies.

– Já se conhece cerca de 1 milhão de espécies de insetos – informa Jane – Mas ainda há cerca de 2,5 milhões a 10 milhões a serem descobertas, o que representa estimativas gigantescas.

Esses números, especialmente em um contexto como o do Brasil, com uma das mais ricas biodiversidades do planeta, são muito significativos, explica a pesquisadora:

– Hoje em dia, o termo “biodiversidade” é chave para a sobrevivência no nosso planeta. E não se pode falar em biodiversidade sem se falar em insetos, o grupo predominante em termos de variedade e números de espécies, e que domina nossa terra em mais variados ambientes.

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