Tenho os dois livros publicados pelo Loriel, e falar dele é homenageá-lo. Homenagem não só a ele, mas a todos os considerados "loucos". Recebi o livro a "Arte da Urgência" em julho do ano passado, com a seguinte dedicatória:
"Meu verbo alma / cinza dentro luz / conhece mundo / ao Rosinha".
Acredito que a alma de Loriel conhece o mundo. Conhece outros mundos com outras luzes, outras dores e sofrimentos. Conhece mundos que os "normais" não conhecem. Conhece o mundo dos poetas. Também conhece outras interpretações pelas afrontas, desprezos e pelos "não ligue, é um louco" que tantas vezes ouviu. E Loriel se confessa louco. Louco por livros. Louco por escrever.
Loriel da Silva Santos é portador de Transtorno Bipolar Misto e, no ano final de 2009, foi premiado no concurso "Loucos pela Diversidade 2009", pelos seus dois livros de poesias e artes plásticas: "O Sentido [In]sano" (2004), que aqui roubo o título para este artigo, e "A Arte da Urgência" (2006).
Este prêmio é dado pelo Ministério da Cultura às instituições que atuam na interface saúde mental e cultura e a artistas em sofrimento psíquico. Entre instituições e pessoas, foram 55 premiados e Loriel concorreu na categoria individual.
Loriel da Silva Santos hoje tem 31 anos e na adolescência recebeu o diagnóstico como portador de transtorno bipolar misto – na época conhecida como "psicose maníaco depressiva".
Vindo de uma família pobre, me contou que até o surgimento da doença era ele, como filho mais velho e sem a figura paterna dentro de casa, quem ajudava a sustentar a família. Com o diagnóstico, passou a ser negado por parte da própria família. A partir do diagnóstico, sua vida passou a ser vivida entre internamentos, a casa e a rua. Não sabe quantas vezes já foi internado.
Em uma internação, no ano de 2004, na Casa de Saúde Nossa Senhora da Glória, incentivado pela terapeuta ocupacional da instituição, trabalhou no primeiro livro: "Sentido [In]sano". O livro, de acordo com Loriel, é bem denso e pesado, pois retrata o lado obscuro da mente dos pacientes da instituição. São poesias e pinturas em que o autor reinventa o que via e ouvia dos seus colegas de internamento.
"Sentido [In]sano" é um livro de composição mista: poesia e reprodução de pinturas, e não é de caráter individual. Nele é reproduzido o trabalho de vário internos da "Casa de Saúde".
"Casa de Saúde", não parece irônico o título que muitos dos responsáveis pelos hospitais colocam? Há outras casas de saúde, que também são para "loucos". Quantos poetas, quantos artistas, quantas vidas desprezadas e desvalorizadas há nestas casas?
Quando recebi o livro "A arte da urgência", Loriel me explicou o título de seu primeiro livro "Sentido [In]sano". Explicação que, quando dada por ele, imediatamente se entende ao sentido da sanidade, bem como o da insanidade da sociedade para com os "loucos". Na minha sanidade, não consigo aqui reproduzir a explicação.
O segundo livro também traz compilação de poesias e representações artísticas no mesmo sentido do primeiro, mas as inspirações vieram dos usuários da Associação LivreMente Arnaldo Gilberti, onde Loriel é atendido há nove anos.
Desde 2009 Loriel está em contato com o Iddeha (Instituto de Defesa dos Direitos Humanos), para contribuir com a luta antimanicomial, dar apoio à pessoa com transtorno mental em todas as suas necessidades e lutar pelos direitos humanos e pelo fim do preconceito e do manicômio.
Uma amostra de "A arte da urgência":
Meu olho é corpo e movimento / É coração que vem e que falha / Estilhaço de um sentimento / É alma que prende o amor numa mortalha / ... / Meu olho é corpo e movimento / Presente numa e noutra estação da estrada / É pedra preciosa que mais parece lascada / Como se fosse equilíbrio de um pensamento. / ..."
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)
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